Olá!
Em
nosso último artigo levantamos uma série de questionamentos e reflexões sobre a
infância que traçam o caminho que vamos percorrer por aqui. Então, comecemos do
início.
Ao
que parece, algo nos move a acordar todos os dias, a abrir os olhos e enfrentar
a realidade cotidiana, seja qual for, e frequentemente não paramos para pensar
a respeito. Temos nossas metas, objetivos, é muito comum que almejemos algum
sucesso em alguma área da nossa vida, ou que simplesmente sigamos empurrando,
mas por quê? Isso parece simplesmente tão natural, algum instinto de
sobrevivência, uma força de vida que nos impulsiona.
Mas
isso não se dá da mesma forma com todos. Há muitas pessoas que almejam formas
de sucesso altamente destrutivas para o todo em que elas mesmas habitam. Há
quem pareça almejar o franco fracasso e se sabote constantemente. Há muitos que
encontram o prazer nas situações mais dolorosas e outros que parecem subverter
esse “instinto de sobrevivência”, chegando às vezes a tirar a própria vida.
Sobre isso, que parece ser a subversão derradeira à uma “força de vida” que nos
potencializa, é de se notar que quase sempre quem tira a própria vida busca na
verdade se poupar de um sofrimento muito intenso ou, antes, preservar algo de
suma importância que se vê inapelavelmente ameaçado. Quantos já não fizeram
isso por algo como sua honra ou orgulho próprio?
Importa
aqui considerar, no entanto, que há sim uma espécie de norteador, um elemento
organizador da psique que na psicanálise chamamos de objeto (de amor), uma
experiência de felicidade que se dá enquanto ainda somos bebês (no primeiro ano
de vida), que só pode ocorrer devido à nossa imaturidade psíquica. Chamamos
esse período ou fase de narcisismo primário, e convido ao leitor a um esforço
de sua imaginação: Por um momento, você não tem fronteiras, não há realmente um
“você” para falar a verdade, não há distinção clara entre eu e não eu. Há um
fluir por uma infinidade de sensações misturadas, um caos sem tempo e sem
espaço. Mas algo aparece que apazigua essa condição, uma sensação de profundo
apaziguamento, que depois desaparece e o caos sensório começa a se tornar uma
ameaça destoante do alívio e cada vez mais aterrorizante, mas o apaziguamento
retorna, e desaparece, retorna e desaparece... Esse apaziguamento se torna o
eixo central emocional ao redor do qual começam as sensações a se organizar; na
medida em que se torna a referência máxima do prazer, se torna o suporte onde
tudo se apoia para formar mais tarde um “eu”, concomitantemente à maturação
neurofisiológica e motora que proveem as condições para que tal se dê, aos
poucos. No mesmo passo, o caos e a desintegração inicial (as palavras surgem
depois, a experiência inicial é total) se tornam o fundamento emocional da destruição,
do absolutamente insuportável.
Não
podendo contar apenas e simplesmente com um frio e maquinal instinto de
sobrevivência, você precisou de referências emocionais que, no início, não
tinham palavra nem ideia, eram apenas sensação. Concretamente, o que se
passava, nada mais era que a amamentação ou nutrição inicial do bebê
acompanhada de afeto, de toque, sem o que ele provavelmente morreria*.
Mais tarde, revivenciar essas experiências na
íntegra é insuportável para o “eu”, mas as referências permanecem com todo seu
valor norteador, no nosso inconsciente. E a elas damos roupas culturais, como
bem ou mal, felicidade e infelicidade, sucesso e fracasso, se falamos em termos
gerais. Mas isso pode ser diferente e reduzido a especificidades de nossa vida
e nosso comportamento de formas infindáveis, a depender do modo particular como
vivenciamos essas experiências, nossa história de vida e da forma como nos
permeamos pela cultura, o que origina as formas tão diferentes e os motivos tão
variáveis do porquê de levantamos da cama. O “ser tudo” do narcisismo primário
provê a referência da onipotência em nossas vidas, que não conseguimos
sustentar na medida em que amadurecemos. A experiência de fusão com o objeto é
uma felicidade que certamente não parece ser desse mundo, um mundo que só se
abre como mundo a partir do momento em que entramos em contato com o limite,
que será o tema do nosso próximo artigo, e tornará possível também começarmos a
falar sobre a sabedoria filosófica do Aikido.
Será
que o leitor já pode olhar com novos olhos o bebê fofo diante dele? Desejamos a
todos uma excelente semana.
* Sobre o curioso
fato de que tendemos a morrer sem afeto, o leitor pode pesquisar o trabalho de
Montager (1988) sobre os orfanatos que, mesmo com condições ótimas de nutrição
e higiene, apresentavam altíssima taxa de mortalidade de bebês (às vezes
chegando a 100%), explicada pela ausência de contato propriamente afetivo com
os bebês, o toque. E também às experiências com macacos Rhesus realizadas por
Harlow (1963-1968) que demonstrou que a nutrição adequada não era o único
elemento a determinar o desenvolvimento normal dos macacos, que exploravam
muito menos o ambiente e se desenvolviam mal quando criados por uma mãe
artificial, fosse de metal ou de pelos.
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