segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A felicidade em nossos primórdios








Olá!
Em nosso último artigo levantamos uma série de questionamentos e reflexões sobre a infância que traçam o caminho que vamos percorrer por aqui. Então, comecemos do início.
Ao que parece, algo nos move a acordar todos os dias, a abrir os olhos e enfrentar a realidade cotidiana, seja qual for, e frequentemente não paramos para pensar a respeito. Temos nossas metas, objetivos, é muito comum que almejemos algum sucesso em alguma área da nossa vida, ou que simplesmente sigamos empurrando, mas por quê? Isso parece simplesmente tão natural, algum instinto de sobrevivência, uma força de vida que nos impulsiona.
Mas isso não se dá da mesma forma com todos. Há muitas pessoas que almejam formas de sucesso altamente destrutivas para o todo em que elas mesmas habitam. Há quem pareça almejar o franco fracasso e se sabote constantemente. Há muitos que encontram o prazer nas situações mais dolorosas e outros que parecem subverter esse “instinto de sobrevivência”, chegando às vezes a tirar a própria vida. Sobre isso, que parece ser a subversão derradeira à uma “força de vida” que nos potencializa, é de se notar que quase sempre quem tira a própria vida busca na verdade se poupar de um sofrimento muito intenso ou, antes, preservar algo de suma importância que se vê inapelavelmente ameaçado. Quantos já não fizeram isso por algo como sua honra ou orgulho próprio?
Importa aqui considerar, no entanto, que há sim uma espécie de norteador, um elemento organizador da psique que na psicanálise chamamos de objeto (de amor), uma experiência de felicidade que se dá enquanto ainda somos bebês (no primeiro ano de vida), que só pode ocorrer devido à nossa imaturidade psíquica. Chamamos esse período ou fase de narcisismo primário, e convido ao leitor a um esforço de sua imaginação: Por um momento, você não tem fronteiras, não há realmente um “você” para falar a verdade, não há distinção clara entre eu e não eu. Há um fluir por uma infinidade de sensações misturadas, um caos sem tempo e sem espaço. Mas algo aparece que apazigua essa condição, uma sensação de profundo apaziguamento, que depois desaparece e o caos sensório começa a se tornar uma ameaça destoante do alívio e cada vez mais aterrorizante, mas o apaziguamento retorna, e desaparece, retorna e desaparece... Esse apaziguamento se torna o eixo central emocional ao redor do qual começam as sensações a se organizar; na medida em que se torna a referência máxima do prazer, se torna o suporte onde tudo se apoia para formar mais tarde um “eu”, concomitantemente à maturação neurofisiológica e motora que proveem as condições para que tal se dê, aos poucos. No mesmo passo, o caos e a desintegração inicial (as palavras surgem depois, a experiência inicial é total) se tornam o fundamento emocional da destruição, do absolutamente insuportável.
Não podendo contar apenas e simplesmente com um frio e maquinal instinto de sobrevivência, você precisou de referências emocionais que, no início, não tinham palavra nem ideia, eram apenas sensação. Concretamente, o que se passava, nada mais era que a amamentação ou nutrição inicial do bebê acompanhada de afeto, de toque, sem o que ele provavelmente morreria*.
 Mais tarde, revivenciar essas experiências na íntegra é insuportável para o “eu”, mas as referências permanecem com todo seu valor norteador, no nosso inconsciente. E a elas damos roupas culturais, como bem ou mal, felicidade e infelicidade, sucesso e fracasso, se falamos em termos gerais. Mas isso pode ser diferente e reduzido a especificidades de nossa vida e nosso comportamento de formas infindáveis, a depender do modo particular como vivenciamos essas experiências, nossa história de vida e da forma como nos permeamos pela cultura, o que origina as formas tão diferentes e os motivos tão variáveis do porquê de levantamos da cama. O “ser tudo” do narcisismo primário provê a referência da onipotência em nossas vidas, que não conseguimos sustentar na medida em que amadurecemos. A experiência de fusão com o objeto é uma felicidade que certamente não parece ser desse mundo, um mundo que só se abre como mundo a partir do momento em que entramos em contato com o limite, que será o tema do nosso próximo artigo, e tornará possível também começarmos a falar sobre a sabedoria filosófica do Aikido.
Será que o leitor já pode olhar com novos olhos o bebê fofo diante dele? Desejamos a todos uma excelente semana.

* Sobre o curioso fato de que tendemos a morrer sem afeto, o leitor pode pesquisar o trabalho de Montager (1988) sobre os orfanatos que, mesmo com condições ótimas de nutrição e higiene, apresentavam altíssima taxa de mortalidade de bebês (às vezes chegando a 100%), explicada pela ausência de contato propriamente afetivo com os bebês, o toque. E também às experiências com macacos Rhesus realizadas por Harlow (1963-1968) que demonstrou que a nutrição adequada não era o único elemento a determinar o desenvolvimento normal dos macacos, que exploravam muito menos o ambiente e se desenvolviam mal quando criados por uma mãe artificial, fosse de metal ou de pelos.
 
 


Leandro Barbosa da Silva
Psicólogo – CRP 12/13919
47  9717 4864
47  3027 1728

Espaço Psicológico D´Etude
R. Alexandre Dohler, 129; Sl. 704
Joinville - SC

 


Parceiro do Instituto Tachibana de Aikido








Nenhum comentário:

Postar um comentário